sábado, 29 de setembro de 2012

Aborto

Essa semana especificamente, o tema recorrente nas redes sociais foi sobre a DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO. Muitas pessoas são contra, muitas pessoas a favor, um debate interessante que entra em esferas pessoais, religiosas, morais e sociais.

A questão maior é que quem é contra parte para o lado moral e religioso da coisa, onde o debate deveria ser a problemática SOCIAL.

Quem defende a descriminalização não são PRÓ-ABORTO, não querem impor que as mulheres abortem, que essa seja uma solução mágica, que são contra a vida do embrião em formação. É saber ver a problemática dos abortos que já ocorrem onde mulheres morrem por abortos clantestinos e mal feitos. Terceira causa de morte feminina no pais, que afeta quem não tem condições nem discernimento para isso.

Quem tem um mínimo de conhecimento e dinheiro, pode realizar abortos em clinicas clandestinas com médicos, por aspiração ou uso do Cytotec, sem maiores sequelas físicas (porque as emocionais, morais, essas ficam para sempre! A não ser que a pessoa não as tenha). Quem não tem, e é mais afetada por essa politica de proibição são as mulheres sem recursos, sem conhecimento, sem apoio. São essas mulheres que sofrem por abortos feitos com objetos perfuro cortantes, por métodos perigosos, morrendo de hemorragias, infecções, com medo de procurar assistência médica para não serem presas, e mesmo as que nem sabem disso e vão, são discriminadas e deixadas para morrer.

E os abortos acontecem em um índice assustador mesmo com ela sendo proibida em nosso pais, 1 EM CADA 7 MULHERES passam por abortos clandestinos. E a terceira causa de morte feminina são por complicações desses abortos. Então essa proibição não funciona. Não existe politica pública realmente eficaz. Mais uma vez demonstrando que o Estado de nada serve a não ser piorar as coisas.

Sim, eu sou a favor da DESCRIMINALIZAÇÃO, mesmo sendo o fato um ato reformista, pois é urgente. No blog da dra. Melânia fala sobre politicas que deram certo e reduziram esses índices de mortalidade. Aqui mais informações técnicas: http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/estima-se-emcerca-de-1-milhao-o-numero.html

A responsabilidade por cada morte materna, de cada aborto provocado é NOSSA! Sim, por permitir que vivamos nesse mundo de desigualdades sociais, de extrema pobreza, por perpetuar esse sistema falido e assassino. E quem ainda apoia essa politica retrógrada, que faça EFETIVAMENTE algo a respeito para mudar essa realidade, apoiando essas gestações indesejadas então, não com esmolas e caridade, não com meros debates em redes sociais, vá lá mudar essa realidade escandalosa!!! Deixe de ser omisso em sua vida, pare de pensar apenas no seu lindo umbigo e sua vidinha confortável e pequeno burguesa.

E para quem pensa em passar por um aborto, digo com experiência própria, é uma agressão enorme ao seu corpo, mas a dor física não é nada perto do restante. Foram anos me sentindo uma assassina sim e hoje consigo falar sobre isso sem chorar e sofrer. E tive que passar por isso praticamente sozinha, com apenas uma grande amiga me dando conforto emocional. E a gestação ocorreu aos 16 anos não por inconsequência, e sim por falha do preservativo, a decisão for por total falta de apoio e compreensão da familia, da sociedade, decisão que tomei sozinha por todas as consequencias que uma gestação nessa época causariam inclusive para o embrião que estava no meu ventre, pois desejo sempre tive de ser mãe, mas que eu pudesse realmente maternar. E hoje acredito sim que foi o melhor.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Eu não sou “menasmain” porque escolhi a cesárea!




Sim, essa afirmação caberia a mim, eu escolhi a cesariana como via de nascimento da minha filha. Eu queria parto normal, eu sabia que meu obstetra era cesarista, ele não me forçou a fazer a cirurgia, eu que liguei para a clinica e agendei a cesárea.

Opa, péra lá, não tem nada errado aqui não? Você apóia o parto humanizado, foi na marcha do parto em casa, que história é essa?

Eu queria o parto normal, minha mãe teve os três filhos por parto normal, então considerava a melhor forma de nascimento. E só. Tive uma gestação difícil, placenta prévia, diabetes gestacional, depressão. Troquei de obstetra umas três vezes por não aceitar a cobrança extra para acompanhamento do parto, já estava até decidida a ter com o plantonista, mas precisava de um obstetra que realmente me acompanhasse a gestação e me transmitisse segurança. Nunca tinha ouvido falar de doula, quanto mais de parto humanizado, parto domiciliar era para quem não tinha hospital com aquelas senhorinhas parteiras... Só não queria a cesárea, medo de cirurgia, do corte.

Obstetra falou que eu poderia sim ter parto normal, a placenta subiu e a diabetes não seria impedimento se bem controlada, mas que ele preferia a cesárea por poder agendar a data, a mãe poder se programar para o nascimento do bebê, deixar quarto e enxoval pronto, ir ao cabeleireiro se cuidar já que depois que nascesse não teria tempo para isso. Outros obstetras marcam a cesárea para casos de diabetes gestacional às 38 semanas, ele nem tocou no assunto, assim minha gestação chegou às 40 semanas, entrei em pródomos, fui para o hospital, o plantonista “bonzinho” me deu remedinho para a dor para não sofrer e voltamos para casa, no dia seguinte passei em consulta, e claro, quase nenhuma dilatação, contrações totalmente irregulares ainda, ele comentou que poderia passar ainda uma semana nessa, ou marcar a cesárea para o dia seguinte, quando meu companheiro declarou “não vou agüentar ver ela sofrendo uma semana inteira”. Sim, essa declaração dele abalou, afora a pressão familiar toda de que tava passando da hora. Voltamos para casa, mandei todo mundo me deixar sozinha, e chorei, chorei, chorei, fiquei umas duas horas no telefone com meu pai que me apoiaria na decisão que eu tomasse. E agendei a cirurgia. E minha filha foi nascida, e choramos, como choramos, eu e ela!

Nunca me senti menos mãe pela cirurgia, nem senti julgada por isso, ninguém apontou dedo na minha cara para dizer que eu era menos mãe. Mas EU me senti MENOS MULHER. Eu me senti fraca por agendar a cesárea. E hoje com as informações que tenho, por não ter dado um nascimento que considero digno a minha filha.

Então esta culpa, de me sentir menos mulher, que me fez buscar mais informações, como as maternas dizem, me empoderar, e transmitir esse conhecimento para outras gestantes.

O fato de divulgar as vantagens do parto humanizado não significa impor que toda gestante deva seguir esse caminho. Divulgar as desvantagens e riscos da cesariana, principalmente eletiva, não é JULGAR como inferior quem passou pela cirurgia por escolha ou necessidade.

Hoje eu sei que não basta QUERER um parto normal. Tem de lutar, se informar, buscar profissionais que realmente apóiem o parto e não darão desculpas para agendar a cesariana.

Concordo com esse sistema atual? Nenhum pouco, porque quem deseja um parto não tem muita escolha e tem de lutar. E nem todas tem toda essa gana para brigar pelo nascimento que deseja ao filho, a gestação já é uma mudança tão grande, hormonal e emocional, e ainda ter de brigar para poder parir?

OK, você escolheu a cesárea eletiva, não o parto. Praticamente todos os obstetras o farão. Aqui na nossa cidade, eu conheço apenas DUAS obstetras que apóiem o parto humanizado e não inventarão desculpas para a cirurgia. E algumas parteiras que atendem a região se desejar um domiciliar.

Então, dá pra entender um pouquinho só porque as ativistas da humanização do nascimento fazem tanto alarde? Algumas até se revoltam com tanta cesárea eletiva, querem a todo custo mostrar ao mundo que não é bom nem pra mãe muito menos para o bebê, e até as mais radicais que acham que a eletiva devia ser proibida?

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Acabou

Acabou
depois desse tempo juntos,
você já não cabe em minha vida.
Sinto tua falta? Sim
Desesperadoramente,
Conforme as horas passam,
a ansiedade aumenta,
penso em você,
cresce a pressão em meu peito,
Coração dispara,
Me falta o ar
Me seguro,
Resisto
Mais um dia
Só mais um dia

Me arrependo
de te desejar tanto
E choro por dentro
Sofro

Porque é tão difícil te arrancar simplesmente da minha vida?

Penso que agora, essa minha dependência já não seja mais química, e sim emocional... Quantas sabotagens, delírios, desejos, tentativas desesperadas de substituir as descargas frequentes de dopamina. Vicio, dependência, escravidão...

Estou muito emoção, e isso me assusta, demais, não sei lidar com isso, nunca soube...

Pára! É uma droga lícita! Para que todo esse drama? É o que racionalmente penso, isso nos momentos que consigo ser um pouco racional (que antes era comum).

Erika, por favor, me ajude, concentre-se, respire fundo, acredite em você. Deixe de lado os delírios, foco na batalha somente. Não adianta desenterrar fantasmas do passado nem criar situações absurdas, nada mais pode ser usado como desculpa para recorrer a ele.

O pior já passou, foram 23 anos se envenenando todos os dias, agora o corpo implora por ele. Não ceda. Por você principalmente, por seus ideais, por seus filhos, por seu companheiro que nunca gostou mas por amor conviveu todos esses anos com ele entre vocês.

Tanta coisa já foi superada, quantas lutas você conseguiu vencer? Essa será mais uma, tenha certeza. Coragem, determinação.

Coloque hoje o ponto final nessa relação que só faz mal, de vez. São 20 dias ensaiando, sofrendo, evitando, 20 dias de desintoxicação. Agora é aprender a viver novamente, sem amarras, livre...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Amor Libertário



"Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade"
A Maçã - Raul Seixas

Quando falamos em "amor livre" ou "amor libertário" já vem a mente a idéia de libertinagem, do pode tudo, irrestritamente.

Mas o que seria "amor livre"? Na minha visão é que o amado não é um objeto de posse e vice versa, que num relacionamento ambos tenham os mesmos direitos, os mesmos prazeres, mas sem a obrigação imposta de monogamia ou poligamia, ou qualquer coisa que o valha.

Desde adolescente, sem nem saber das teorias libertárias ou ter ouvido sobre o termo amor livre, não conseguia ter relacionamentos com ninguém na base da mentira. Ficava com um cara, se ele voltasse a me procurar a primeira pergunta, sempre na lata era "o que é que você quer comigo, curtir, ir ficando sem compromisso ou quer namoro certinho com fidelidade?". Nem preciso dizer que assustei um punhado de pretententes, e que dos poucos que assumiam querer um lance mais aberto não suportavam que eu ficasse com outro cara e vinham as inseguranças, cobranças e eu os mandava a merda.

E quem acha que foi diferente com o Idilio, não foi. Só que ele não se assustou, não sei se estava muito bêbado pra ter prestado atenção, se a paixão era tanta que o cegou... enfim, ele falou em relacionamento monogâmico. Para quem nunca suportou se sentir presa a nada, era estranho eu gostar esse relacionamento certinho, a vontade de sempre estarmos juntos, sem cobranças, só vontade pura e simples.

Pois é, noivamos, casamos, tudo como manda o figurino (Nada anarquista não?) No dia do casamento, eu tinha tanta certeza do passo que estava tomando que não fiquei nervosa, estava serena, tranquila, e tive que ouvir mais de uma vez que não parecia que eu estava casando (claro, depois entendi pq se choram em casamentos, rs...)

"Mas o relacionamento de vocês não é baseado no amor livre!!!" Ao contrário, é totalmente baseado no amor libertário. Apesar de termos assinado o papel do Estado confirmando nossa união, nunca me senti obrigada a nada com meu marido, nem de ser fiel, me apresentar como boa esposa e tudo o que a sociedade cobra. Como eu nunca exigi isso dele.

Ah, então rola oba oba, troca de casais, swing, menage a trois, a suruba? Nada disso, somos o casal mais careta que eu conheço, monogâmicos por opção, sexo com amor, com prazer, com desejo real.

Sexo por sexo libertino, isso se consegue em qualquer barzinho hoje, onde as pessoas viraram objetos, escolhidos por adjetivos: "novinhos" "fáceis" "ficáveis" "interessantes" "playboy" "cafa" (tá, eu também já falei assim, confesso, não pegava novinhos, que grudavam depois, preferia os cafas, achando que eu estava acima por usar o cara, já fui muito idiota sim, confesso).

Conversando atualmente com pessoas "normais", presas as regras da sociedade, religião e Estado, que interferem na relação pessoal de um casal o obrigando a fidelidade perpétua e até sexo obrigatório (sim, tem uma lei que o conjuge pode cancelar o casamento caso a outra parte se recuse a ter relações), vejo o desejo (nem sempre) contido pela infidelidade, de homoafetividade enrustida, do sexo marital por obrigação, a prostituição doméstica (se submete ao desejo do marido, pois tem medo de que não o satisfazendo, ele busque outra. Querendo ou não, há aí uma espécie de prostituição doméstica." *), a maternidade imposta (não por desejo do casal, e sim mera obrigação do casamento, a reprodução).

"Tudo o que é proibido é mais gostoso"? A imposição, as regras são tão fortes assim que as pessoas não conseguem libertarem-se disso?

Prefiro mil vezes o amor real, livre, leve, solto, libertário... do que a falsa sensação de segurança que as imposições sociais pregam. Prefiro mil vezes permitir que meu companheiro seja livre para amar e ter prazer como desejar mesmo que não seja comigo, como eu também preciso ter essa liberdade.

Que possamos ser 2 individuos inteiros que desejam estar juntos, não 2 seres incompletos que precisem do outro, criando dependência, relação de posse, ciumes, insegurança.

Quero sempre poder diferenciar o amor do desejo e do prazer puramente sexual. Saber respeitar e não fechar os olhos as diferentes formas de se relacionar e amar, não me fechar a nada, liberdade plena...




*Citação do blog: Casamento e Prostituição: http://pomodadiscordia.blogspot.com/2005/06/casamento-e-prostituio_11.html

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sonho e realidade

Sonho… eu sonho com um mundo em que todos tenham direitos iguais, oportunidades iguais. Não um mundo de iguais, como robôs, pois a diversidade nos enriquece. Desejo que cada um possa realmente escolher qual caminho seguir, tenha acesso livre as informações, que possam viver como querem, livres.

Neste meu sonho, as mulheres teriam o direito a escolher sobre o parto, onde ter, como ter, como maternar, educar os filhos, conviver… hunrun, já sei, vão dizer que hoje as pessoas tem tudo isso e que muitas não querem ou abrem mão da escolha. Infelizmente não é verdade, uma minoria tem acesso às informações, as que tem acesso nem sempre conseguem ter o parto ou criar os filhos como desejam. Nesse mundo real, direitos não são iguais…

Por mais acesso a informação que tive, por mais que me empoderei, não tive um parto normal e muito longe do humanizado que desejava. Após uma cesárea e com diagnóstico de diabetes gestacional, sabendo que nada disso era impedimento para o PN, procurei o grupo de parto alternativo do CAISM, foi negada a minha participação. Na Maternidade, agendaram a cesárea às 38 semanas, isso tudo pelo SUS. Como última alternativa, fui a última maternidade possível pelo SUS após rompimento da bolsa e apenas com cartão de pré natal nas mãos. Tive um VBAC meia boca, com uso desnecessário do fórceps, quebra total das normas pois faziam todos os procedimentos sem nem falarem nada, foi impedida a entrada da minha amiga (e também doula) durante o TP, deixaram meu marido entrar apenas no último minuto depois de me darem anestesia a força (porque eu me jogava para trás gritando que eu não queria), fora que fiquei mais de 12 horas na sala de recuperação por falta de quartos, sem nem poder ver minha família nem mesmo meu marido. E ainda tive de ouvir, “mas você teve o seu filho de parto normal como queria”. Me digam, foi um parto normal?

Ah, mas eu deveria ter um parto domiciliar… só se fosse desassistido e isso eu não tenho preparo mesmo. Não desvalorizo o trabalho maravilhoso das parteiras e toda equipe médica, mas como honrar o trabalho delas, onde tirar dinheiro para se pagar por esse serviço, se em casa, vivemos com menos de 3 salários mínimos por mês?

Pobres sonham quando muito, em ter um leito no hospital pra passar por um parto frank e ainda durante o TP gemem baixinho pra não incomodar as técnicas em enfermagem, o aleitamento materno exclusivo por 6 meses é utopia, mesmo com a licença maternidade, vão amamentar no máximo até os 3 meses, pois os postos de saúde dizem apoiar a amamentação, só que a conversa é outra na sala da pediatria. Muitas delas não sabem o que humanização de parto, até sabem da importância de amamentar, mas como? Elas tem de trabalhar pra não passar fome.

São essas mesmas mulheres que vão fazer a faxina na casa de muitas leitoras aqui do blog, são as atendentes de telemarketing que nos irritam com suas ligações, as caixas de supermercado, as monitoras que cuidam dos seus filhos nos berçários… questiono, elas não são mulheres e mães como todas aqui? Não deveriam ter os mesmos direitos? Só porque não tiveram a mesma oportunidade de estudar, fazer uma faculdade, merecem menos?

E meu questionamento e luta atuais não são apenas em divulgar as vantagens do parto normal, do aleitamento, do attachment parenting, da não violência a crianças… mas para que TODAS as mulheres tenham esse direito, levando isso até elas. O difícil é esse trabalho de formiguinha, sozinha…

Texto que escrevi para o blog do Mamiferas: http://www.mamiferas.com/blog/2011/12/sonho-e-realidade.html

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Mãe e mulher anarquista


Este é outro texto que a tempos fica caraminholando na cabeça e nunca coloco "no papel".

Antes de mais nada:

"O anarquista vê em cada homem um irmão, um ser igual, não um irmão inferior e faminto a quem pratica caridade, mas um cidadão a quem deve justiça, proteção e defesa. (Anarquia, Manuel Gonzales Prada). Se há alguma coisa a censurar no anarquista, afirmam, só pode ser o seu otimismo, a confiança na bondade “ingenua” do homem. (ABC do Anarquismo - Edgar Rodrigues)"

Meu pai era anarquista, mais na ideologia do que como militante, fui criada dentro desses principios, não fui batizada, nossas ceias de Natal sempre tinham porteiros dos prédios vizinhos, trabalhadores das construções próximas, ele sempre me falava que ninguém era maior ou melhor que ninguém porque fez faculdade ou tinha dinheiro, valor pessoal era outro. Só que ele nunca se intitulou como anarquista, socialista ou o que for.

Meu primeiro contato com um anarko punk foi aos 14 anos, não me identificava com a contracultura, o visual, mas sim com os ideais. Minha adolescência sempre estava metida em grêmios, centros acadêmicos, manifestações estudantis, mas também meio a parte por não me identificar com a esquerda comunista.

Cresci e como infelizmente acontece com a maioria das pessoas, deixei de lado as ideologias e fui correr atrás de dinheiro, trabalhar, trabalhar, trabalhar, me tornando uma liberal de carteirinha, escrava infeliz do sistema. Até conhecer meu companheiro Idilio, anarquista militante, que realmente acredita na luta, na ação direta, que não se deixou contaminar nem corromper.

Enquanto éramos apenas nós 2, estávamos juntos nas reuniões, nas manifestações, tudo mudou com a maternidade. Como ir a uma manifestação com risco de apanhar da policia com um bebê no colo? Acampar sem condições com uma criança?

Hoje não posso dizer que sou uma militante ativa, mas sim passiva, fornecendo meios para que meu companheiro possa militar mais ativamente. As vezes "fico de bico" quando ele sai e tenho de ficar sozinha com as crianças, momento totalmente egoista, sou humana...

E outros dilemas que passamos, o consumismo desenfreado que meus filhos estão expostos, com todas as outras crianças com todos os brinquedos e roupas que querem, o desejo do tal lanche com apelo absurdo sobre eles. Questões religiosas na escola pública que deveria ser laica... Proibir? Negar? Desconversar? Isso não seria uma atitude libertária e sim uma imposição, exatamente contra tudo que lutamos. Então minha filha pede o Mc Lixo inFeliz, eu a levo com pesar só lembrando do holelite de exploração dos que trabalham lá, mas já expliquei que tanto eu como o papai não gostamos de lá, que não precisamos ter tudo o que vemos na TV, só o necessário para vivermos bem. Questões religiosas foram debatidas com a professora que se mostrou inflexivel, então tivemos que trabalhar em casa.

Outra questão importante é o de não ser anarquista da porta de casa para fora. O anarquismo dentro de casa é vivo, pulsante... somos todos os 4 iguais, com direitos e responsabilidades, ninguém acima de ninguém. É trabalhoso lidar com isso pois somos criados a mandar nos mais fracos, bebês e crianças não sabem se expressar direito, não sabem debater, como saber o limiar entre um desejo egoista e o respeito as vontades e necessidades deles, é um exercicio e prática diária.

Ter ideologias tão opostas não é fácil.

- Por ser atéia, sempre tem quem queira me converter ou se escandalizam pq não falo de Deus para meus filhos, como se fosse um crime (e cadê a liberdade de crença?)
- Por ser anarquista, a maioria já acham que sou da esquerda, confundindo com os petistas (o que para mim é pior do que me xingar do pior palavrão)
- Por defender o parto domiciliar e a amamentação prolongada, de ser como ouvi uma vez, querer ser bicho, índio (nessa fiquei orgulhosa, pq tenho vergonha do homem branco)

Enfim, minha mãe sempre me disse que gosto de ser do contra... mas o que seria do mundo se todos fossemos iguais sempre?

domingo, 9 de outubro de 2011

Mais mãe x Menos mãe




Estreando o novo blog com um desabafo que penso em escrever a tempos... a tal história de "mais mãe" e "menos mãe"...

Estou a voltas com assunto maternidade por uns 6 anos, e desde que comecei a conversar com outras tentantes, gestantes e mães, sempre rola esse assunto, principalmente, mas não só na internet.

Porque as mulheres tem de ser sempre tão competitivas? Nunca vi homens discutindo se são mais pais, menos pais, mais machos, menos machos, mais bonitos, menos bonitos.

E já tive problemas sérios com esse tipo de discussão...

Sou, ou tento ser, a melhor mãe que posso para meus filhos, sempre busquei muitas informações na internet e tudo que eu achava interessante ou válido, divulgava as outras mães, adorava debater idéias e as vezes até me exaltava sim em algumas conversas. E sempre nesses debates saia a tal expressão "menos mãe" das que discordavam da minha opinião. E na maioria dos debates que leio, a tal expressão sempre surge de quem não concorda, não que alguém a acuse disso. Será que o menos mãe esteja na cabeça de quem discorde?

Hoje tenho amizade com os mais variados "tipos" de mãe, e não considero nenhuma "mais" ou "menos" mãe, tem as tiveram filhos por cesárea, escolhida ou não, como as que tiveram parto domiciliar, tem as que não amamentaram, porque não puderam ou não quiseram, tem as que trabalham fora, as que deixaram de trabalhar para ficar com os filhos, as as que deram chupeta, mamadeira e as que usaram copinho, papinha pronta ou papinha orgânica, que aplicam o "Nana Nenê", as que fazem cama compartilhada, crianças sem rotina nenhuma, outras com rotina super rigida, escolinha quando bebê ou depois dos 4 anos, nenuhma delas considero melhor do que a outra.

Inclusive, se pensasse assim, eu seria menos mãe em diversos itens:

- cesárea eletiva da minha filha
- filha entrou na escolinha aos 2 anos e meio
- tive depressão pós parto
- fumei a gestação inteira do meu filho
- dei mamadeira para o meu segundo filho
- já dei papinha pronta para ambos os filhos
- perco a paciência com as crianças
- deixo eles assistirem televisão
- deixo eles comerem bobagens
Entre outros...

Pessoalmente, apoio o parto normal humanizado e se pudesse teria parto domiciliar mas me faltou coragem e grana. O que não significa que quem pense o contrário esteja errada. O que está errado são as mulheres terem de brigar tanto para conseguirem ter o parto normal.

Amamentei meus filhos exclusivamente por 6 meses, minha filha sem outro leite até os 2 anos e meio, já meu filho até 1 ano onde passou a complementar com LV e se desmamou com 2 anos.

Sou voluntária em aleitamento materno, auxiliando as mães que desejam amamentar, nas dificuldades iniciais que acontecem. E digo sempre a todas as mães, antes uma mamadeira dada no colo com carinho do que o peito contrariada.

Divulgo que mamadeira e chupeta provocam desmame precoce e podem acarretar problemas na respiração, arcada dentária e outros. E meu filho tomou mamadeira por 1 ano por comodidade minha, pois com o copo de transição ele também tomava numa boa mas não se aconchegava no meu colo para dormir.

Eu deixei de trabalhar antes mesmo de engravidar para me dedicar integralmente a familia e aos filhos, hoje trabalho em casa e tem dias que não tenho tempo para eles (e me sinto culpada sim, mas é um problema meu de organização).

Pratiquei cama compartilhada com a minha filha, com meu filho eu que fui para o quarto deles, pois meu marido não concordava em ter novamente um bebê em nossa cama.

Fui super rigorosa com a alimentação inicial da minha filha, hoje ela come de tudo e adora comida saudável. Já com meu filho, fui mais relaxada e permiti guloseimas cedo, e por ele vive disso e não quer saber de comida, máximo é um arroz ou macarrão com farinha, come algumas frutas e alface. E bobagens em geral.

Gosto de conversar e ajudar outras mães, mas o que falo ou oriento são baseadas nas minhas leituras e experiências, não sou dona da verdade (acho que ninguém é). E nem tudo que funciona na minha vida seja válida para todos.

E porque escrevi tudo isso? Porque não aguento mais ver as acusações de que fulano se acha "mais mãe" por isso ou por aquilo, se ciclano seja "menos mãe"... cada ser humano tem suas crenças, suas limitações e ninguém é melhor que ninguém. Paremos de "mimimi" e gastemos energia com o que interessa, sermos melhores mães que podemos!